Blogue literário deTchalê Figueira

segunda-feira, 13 de junho de 2011

DE CHARLES BUKOWSKI



No inverno caminhando em meu tecto


meus olhos do tamanho de luzes de poste.


Tenho quatro patas como um rato


mas lavo as minhas roupas íntimas - barbeado


e de ressaca e de pau duro e sem adevogado.


cato canções de amor e carrego aço.





Prefiriria morrer a chorar. Não suporto a matilha


não posso viver sem ela. Inclino minha cabeça


contra o refrigirador branco e quero gritar


como o ultimo lamento de vida para todo sempre


mas sou maior do que as montanhas.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

DOS POEMAS: EROS

A águia voa num Mar de esmeraldas Na apoteose do dia O universo canta Socalco do mundo Magnéticas rosas, Relâmpago e fogo Habitam meu corpo Abraço o teu corpo Beijo os teus olhos Tremem teus lábios, de Dragoeiro carmim.

quinta-feira, 24 de março de 2011

LETRAS SOLTAS

Oh andantes cavaleiros que andais por este mundo,
Que acreditais na fantasia de dom Quixote
Lutando contra mísseis e catástrofes nucleares,
E, a vosso lado, monstros com a sua parafernália, brincando suas
Batalhas e jogos de poder, estes seres, que creditam ser inteligentes,
mas são “espertos”… porque, a inteligência, não é camarada
Da morte… Estes monstros, “adultos”, cujo a criança em eles abortou, e nem todos os psicanalistas deste mundo poderão cura-los; porque a
Humanidade nasceu de um falhanço biológico na sua evolução…
Charles Darwin, Galileu, Giordano Bruno, Ghandi, para a fogueira…
E, acreditamos” em Deus, cujo a obra, somos nós, feitos a sua imagem,
E, se tal for o caso, também ele, um enorme falhanço, nascido no nosso micro cérebro, caca de mosca no Universo infinito, e finito são as nossas
Vaidades efémeras…

Oh andantes cavaleiros, dom Quixote nos seu leitos
De morte, poetas em agonia, pronunciando a ultima frase:
CARAMBA!...AO MENOS, TENTEI!!!!!!!!!!!

domingo, 20 de março de 2011

21 MARÇO DIA INTERNACIONAL DA POESIA: POETAS!... CELEBREMOS!!!!

Oh Homem!
Poesia, não é dactilografia!...
Poesia, é sentir a força do cosmos,
O pulsar da erva que cresce,
Voar com o voo dos pássaros, até o profundo
Da tua alma, azul celestial, criança, que vive em ti;

Espuma das ondas, o timbre sinfónico do mar
Aurora boreal, magnética luz,
Natureza em movimento,
E o silencio musical das montanhas…

Escriturar palavras, é enovelar verbos,
Presunção académica de escriba,
Entulho rebuscado de palavras
Fantasia de asa quebrada
Caligrafia triste sem alma!...

Observa as estrelas do céu oh homem!...
Sente o rumor de cada linha nas folhas
Da árvore, onde respira o mundo;

Ouve o som das pedras deitadas no deserto,
Beijadas pela musica do vento norte
Em teus ouvidos cantando.

Poesia!... É a simplicidade divina das coisas,
Neste universo sem fim.











O SOL NASCE É UM NOVO DIA

Bate a minha janela um agourento pássaro
Meia-noite sem luz, amante da morte,
Seta aguda, insecto nocturno;

O dia dorme, suas pálpebras de chumbo
Arde em meus olhos o vazio das lágrimas
Lava esfriando, fogo que apaga …


Sombra nocturna estremece em meu corpo,
Erva frágil, noite azeviche
Ilusão do mundo, relâmpago que extingue

Folhas de Outono que vagarosamente tombam,
Dialogando com a morte, desejo a aurora.
O Sol nasce, é um novo dia!


quinta-feira, 17 de março de 2011

LETRAS SOLTAS: PUXA SACO E OUTRAS COISAS

Não há remédio, o cristal despedaça eternamente em bilhões de fragmentos. A felicidade é uma ilusão vendida num rectângulo de sonhos que escurece a lua da poesia, que assassinos da luz, em vão, intentam, subornar a imortalidade. Plutocracia desenfreada; e, um bem-falante, nem sempre é um homem bom, igual a um cão, que ladra muito, e não é um bom cão. Oh Vida!!!!!... O rio da vida segue o seu caminho, são milhões de anos, e há mais sangue no seu fluxo, do que fontes cristalinas, onde os poetas bebem, o elixir da serenidade e da contemplação… Sentir a erva fresca das montanhas crescer no imaginário, a luz que não conseguem aprisionar; porque, em tempo de escuridão, os poetas, são a lanterna do Mundo!... E vós mortais, que pensais ter toda a retórica do mundo, lobos enfeitados de tribunos, vossas capas de vermes… Mascarados; salvadores da justiça, vossas leis, vossas igualdades, vossas democracias e fraternidades! … Palavras!!!!! Palavras!!!!! E, se no princípio era o verbo, ter olhos para contemplar, e meditar foi a criação da poesia… Por favor homem!... Não me venhas oh tirano, pregar com a tua dicção simulada de profeta, as tuas maldades inimagináveis… Afasta de mim este cálice, como disse o outro. Sou cavalo que galopa na savana, longe do submundo das cloacas do inferno, e o inferno és tu, e os teus subnormais; insanos, que seguem amarrados nas grilhetas das tuas promessas, a sua incerteza de serem eles próprios. Flores espezinhadas no contracto social da sua triste ignorância. Este medo de sermos nós próprios! Nem Deus, nem mestre, e sem puxa sacos que parasitam na órbita do vosso planeta das vaidades. Pobres de espírito que vão comendo das vossas migalhas, cães obedientes, misantropos, ladrões, traidores, bandidos, criminosos, assassinos… e, eles? Não são bons, uns com as outros?...Se a pureza entre eles todavia existe, acredito que odeiam a sua condição de párias, mas preferem beber Coca-Cola, arrotar em orgias perversas, andar de cabriolé nas ruas da futilidade, e não existe remédio contra a mediocridade… Não há remédio meus amigos, mas todavia existe a poesia, e o poeta, é uma Fénix, que ressuscita das cinzas… Batendo as suas asas de luz, voa para a cidade das utopias, onde mora a felicidade, mesmo sendo ela efémera, como a vida de uma libélula num regato de música.

terça-feira, 15 de março de 2011

Poesia: Casa de Espuma

Casa de espuma, tecto de nuvens,
Em harmonia, seu formoso círculo,
Lar deslumbrante, luminoso de estrelas …

Minhas pálpebras abrindo, sua luz doce, que abriga o dia,
Sua nocturna cortina, que alberga a noite;

O som das
Palavras; teu sedutor silencio,
Montanha sólida; teu zénite solar meus lábios
Que rezam; olhos gizando, curvas de pássaros;
Teus mamilos de mãe, néctar fluindo,
Fonte serena, é o teu jardim, de mariposas;

A relva em silêncio cresce na estrada, a caminhada
Prossegue; peregrinos do amor,
A cada passo, inventamos a esperança;
Memórias e paixões, antes, navegados,
Muitos por navegar; oceano imenso,
Peito iluminado, alteia a fé;

O tempo é memória, vivo o momento,
Cada segundo que passa, já não existe,
A poesia passa, é um relâmpago;
Beijo que abraça a vida, é o amor,
Aurora única que constrói o mundo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

LETRAS SOLTAS

O Encontro

Num templo cilíndrico de pedras negras, debaixo de um altar rasgado por ervas, um guerreiro adornado com escudo e espada, jaz num chão de terra coberto de fungos e odores obscuros. Descendo Do meu alazão, ajoelho a seu lado, constato que está gravemente ferido no peito, seu respirar ofegante, carrega-me de regresso, a evolução.
Viajo até as grandes savanas Africanas, durmo nas cavernas da Etiópia e da Tanzânia, lembro-me do meu milenário medo nocturno das feras. (Sou o único animal sem visão nocturna) Falo com Lucy, primata que desceu das árvores, para pisar a savana. Com a evolução é Homem Habílis, o inventor da pedra lascada, machados e lanças, suas primordiais ferramentas, no seu dia a dia…

Tremendo de frio, (talvez de medo) vejo no rosto pálido do guerreiro a morte; meu corpo estremece. Noto a sua espada ensanguentada, pergunto: Quem foi entre os homens, o primeiro assassino?...

Destapando o meu cantil, coloco água fresca em seus lábios esverdeados a cor
que a morte tinge os homens, mas seus beiços rígidos rejeitam o mais precioso de todos os líquidos, que lentamente rola dos seus lábios, entranhando no húmus da terra…

Sei, perfeitamente, que é o fim do guerreiro!...

Acordo-me das minhas meditações, pelo vento frio que bate nas folhas de uma carvalho, inesperadamente escuto o grande rio que corre entre calhaus e musgos pré históricos. A grande água, com o seu canto vital acorda-me do meu torpor, sua bela canção, por um momento, afasta-me das dores do Mundo…

Levantando a minha cabeça para o tecto sem cobertura do templo de pedras negras, contemplando a abobada celeste, lar das estrelas, que flutuam na infinita imensidão celestial, durante alguns segundos, especulo sobre possibilidades filosóficas possíveis, e impossíveis…


Sem ferramentas para cavar, uma sepultura ao homem que jaz a meu lado, com esforço
cubro o morto com pesadas lajes de basalto, numa espécie de pirâmide tosca e informe e numa fresta do sepulcro, enfio a sua espada, onde penduro o seu enorme escudo, com estranhos desenhos, símbolos para mim desconhecidos.

Comovido, adivinho o sal na minha boca de algumas lágrimas que rojam dos meus olhos, e, num gesto brusco, agarro as rédeas da minha montada, salto energicamente para a garupa do animal, pico as afiadas esporas na barriga do corcel, que desata a galopar na imensa planície. O vento frio cortante, fustiga a minha face, perco-me no tempo, e, após tanto galopar, estou numa colina com enormes ciprestes e pinheiros reais. Um cheiro a ervas e fungos, inquietam meu cérebro…
Olhando pela última vez, o templo que tremeluza, lá longe no horizonte…
Penso.

O homem que enterrei lá em baixo é meu irmão! … No escasso tempo em que estive a seu lado, revi a história da humanidade, milhões de anos num ápice passou.









AZUL DA PRÚSSIA

Momento!

Azul da Prússia, o sol em teus seios,
Olhos negros, voo delicado,
Pétalas na rosa, odor matinal
No pico da flor, poisa a abelha…

domingo, 13 de março de 2011

O silencio das montanhas magicamente musicais,
A serenidade que equilibra o zen do teu ser,
Leve como as nuvens, plumas de um pássaro
Do paraíso, com o seu cantar, que é descanso,
Das coisas que diluem no tempo…

Tudo passa!...

E eu aqui esperando por ti em sigilo… E, se não falas,
Pacientemente, esperarei as tuas mensagens;

E, quando chegarem, igual a luz do dia,
Ou o azul da ilha,
Encherão todas as flores dos canaviais,
Com a tua voz de água, musical e cristalina;

De alegria será o meu dia, bailarei
Contigo descalço, na leve espuma branca
Das ondas, que chegam a praia dos
Nossos olhares.

EM TEMPO DE ESCURIDÃO

Em tempo de escuridão, os poetas são a lanterna do Mundo.

LETRAS SOLTAS

Num provérbio hindu: Crianças e o diabo, as pessoas nunca sabem, o que eles vão fazer!... Mas os políticos, estes, soltam flatulências pela boca fora, flagelando ceguinhos de espírito, patetas alegres na procissão … Todos entram no baile!... Testemunhas de Jeová, ou gentes de outros clubes de bandalhos e espantalhos, cantando glória a politica e ao altíssimo! … Pois!... Com dizia, Hermes Tresmegistus: O que está no alto, é como o que está em baixo… mas pessoalmente, prefiro o caminho do meio, caminho dos budistas e, não fosse do meio das mulheres, o lugar sagrado onde nascemos e, se assim não fosse, não teriam as donzelas, o triângulo mágico, onde aconchego a minha poesia, isenta de blá blá blá… Tão pouco, cocorocó de galo de entulho, numa capoeira plena de pulguinhas, ou, o raio que os parta, e, coçam mais do que aquele coce, coce, extraído nas baterias, dos carros da minha infância…

Palmas palmando, meus senhores e minhas senhoras, trombones desafinados, histerismo de massas, aplaudindo urubus disfarçados de pombas brancas, símbolo da paz, falhanço há milhares de anos, que escorre num crivo de soda caustica…

No deserto de Gobi, um milhão de chineses, empurram uma carroça. Carrega uma bomba de plástico, invenção de um profeta ocidental, que enriqueceu vendendo tinas de plástico nas portas da Wall Street gritando de forma profética: Plastic is Fantastic!!!!...

E, a rosa, que eu tinha para oferecer-te, proveniente do monte Evereste, também um trevo de quatro folhas dos Alpes, que infelizmente murchou na ponte de água estagnada, curral de vacas em delírio, casa de patéticos desfiles de peruas e morcegos, que perderam o seu radar, nadando numa lagoa de urina no cais da alfandega…

Um atleta, supersónico, fora de série, faz piruetas na estratosfera, exibe os seus músculos na Laginha… Um capanga planta terror num campo de refugiados, vedado com arame farpado, e, no ocidente um ranger de dentes, policias em bicicletas, perseguindo traficantes de africanos, obra fantasmagórica, dinheiro sangrando, mães chorando, mentes perversas colectando cadáveres, que nunca chegam ao paraíso.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Tchalé Figueira em Conversa com Alexandre Conceição e José Cunha.wmv

PARA OS QUE ACREDITAM!

Entre a realidade e o onírico a liberdade de protestar e inventar…

Como um contador de histórias que inventa princesas e dragões, crio bichos estranhos, homens e mulheres, em superfícies planas, pintadas com tinta, habitantes do meu subconsciente, minha mitologia pessoal.

Tudo não passa, de uma reinvenção, de outras invenções e, como disse, Jorge Luís Borges: Nada é novo neste Mundo, tudo é esquecimento! …

Tento perceber a complexidade do Mundo, sentir, amar, e também comentar e criticar as coisas boas e más nestas ilhas e no Mundo:

Racismo, politica suja, desastres ecológicos, fome, pedofilia, telenovelas de mau gosto, prostituição, emigração clandestina, neonazis, poder, senhores da guerra, o amor, a poesia, a arte, a compaixão, solidariedade;

Sim! Partilhar, e acreditar no belo!...

Sem Utopia???? O Mundo seria, um imenso caixote de lixo!

O meu país é todos os países, a minha Pátria, a Liberdade!

domingo, 6 de março de 2011

AO POETA NOCTURNO

Macaco Gramático:

Mono com coroa apagada de pirilampos
Recita poesia num charco de sapos;

Narciso atolado na lama
Dom Quixote sem fantasia
Risca gatafunhos na sua
Bêbada psicose;

Tem síndrome de Ezra Pound;
Mija tinta no micro cosmo absurdo,
Da sua aldeia nostálgica;


Macaco gramático vaidoso,
Lê em voz alta poesia
A uma vara de porcos
Surdos de espírito, cegos de luz;

Académico vaidoso, num
Panteão de ossos.


sábado, 5 de março de 2011

Steve Reich - Different Trains (Part I)

LETRAS SOLTAS

Nunca tinha visto as cataratas de Niágara, foi a ilha de Cuba operar cataratas, agora enxerga, e já vê o seu gato Voltaire, nome escolhido por ele com ironia, porque o felino, sai atrás de gatas com cio, e o malandro sempre volta… Daí o nome Vol(ta)ire, filosofo da idade da luz… E, falar de Luz, convêm não confundir as trevas, com a deusa Electra da mitologia. A nossa Electra aqui, tem os geradores fodidos, espalha trevas na cidade! …
Reclama passivamente o povo das ilhas contra estes construtores de túneis e, o grego Diógenes as volta aqui em Mindelo, busca de um político justo? Dizem que o politico justo, malabarista de verborreias, desapareceu num mar repleto de tubarões … Segundo a lenda, foi para o fundo do mar, em busca de uma varinha de condão, prometeu solenemente, milagres, a uns idiotas cegos de espírito …

É urgente o amor, escreveu Daniel Filipe, poeta Luso Crioulo e, nas portas desta cidade, foguetões com rodas guiados por Las meninas, que não são as meninas da bela obra no Prado, pintadas pelo mestre Velásquez…
Aqui, las meninas, conduzem cabriolés e, ao velas passar, traz-me a memoria, um famoso capitão das ilhas, que dizia em alta voz cavernosa quando embebedava-se, esta bombástica frase : Na nossa família, temos de tudo: Capitães, Intelectuais, e, até putas têm!!!!

A transmutação da crica em bilhetes de 5 mil escudos é um delírio!... Vão as compras nas fraudulentas lojas de luxúria bacoca contrafacção Made in China, com suas etiquetas D, Or, e, nem tudo o que brilha é ouro, já dizia-me o alquimista doido que mora debaixo do cais da alfandega, este místico sitio, onde três tartarugas, convocaram uma reunião urgente, com o objectivo de fazerem um balanço sobre a problemática ecológica, discutindo sobra a situação da BP, lavando o golfo do México com Petro- Dólares; flora e fauna que desvanece, culpa da estupidez humana e como já disse Einstein: Existem duas coisas que tenho a certeza: O Universo é infinito, e a estupidez humana também …

Do alto de um promontório observo um velho índio afónico na sua montanha; já não canta aos deuses, e o seu tambor calou… Carlos Castanheda e Don Juan, metamorfoseados, em corvos, voam no alto de um céu azeviche: Num ritual comeram Poiote; voando observam a miséria do mundo que passa numa procissão, rezando: Flores para los muertos! …Flores para los Muertos!

sexta-feira, 4 de março de 2011

A VIAGEM

Lá longe de aquilo que eu e o
Mundo sabe é o vazio. A especulação
Das estrelas, as palavras. Sempre as palavras,
A candeia e a bengala, o sustento do efémero,
Borboletas desfazendo em cinzas.

Sementeira nos campos. Algumas perdidas
Pela secura da alma, outras iluminadas pelo
Incêndio do peito, tal mulher casa da primavera.

Neste monte verde uma grinalda de névoa entra
pelas minhas narinas, penso nos meus mortos que
frios jazem em catedrais olvidados e, no
meu eu, a luz herdada dos seus candelabros
de cristalina sabedoria

Com meu cajado de plumas e um mar imenso
de pensamentos a águia voa, meu pés descalços
sentem a renda dos massa pés, modelando trilhos
na ilha

Lembro-me dos teus ombros que beijo e torno
A beijar cem vezes cem, ou equação infinita
na tábua de ébano dos teus olhos. Borboletas,
pássaros, flores, e meus dedos apontando uma
lua coralina, que repousa entre os vales dos teus formosos
seios.
O quarto, a mesa onde divido o pão e escrevo,
invento palavras cortantes como a espada da
morte, também o sabor a mel que corre nas linhas
das minhas ideais. Colheitas armazenadas
na electricidade do meu crânio iluminado, insectos
coloridos com sangue, sobrevoando o lago das minhas
incertezas.

A casa febril arde, papoilas vermelhas
suspensas na seara, o invisível ar
que respiro, a profundidade no oceano das palavras
que sondo. Respirar de cavalo sem freio,
a tristeza ,o amor e a morte, corrente marítima,
veleiro navegando na borrasca,
minha solidão sem beijos.

Romarias e suor, repicam-se tambores nas ilhas. Santos por um
dia pelas ruas caminham, dos seus sexos bátegas de chuva regando
acácias com seus ramos de navalhas apontadas para a lua.
O povo canta, a cortina da míngua
num tocar de corpos desvanece no vermelho da terra,
e, ressuscitado por um segundo, Cristo com um panfleto
de luz, grita aos homens: Amais uns aos outros, irmãos.
Igrejas, mesquitas, sinagogas, templos iluminados,
dogmas e mártires, artilheiros da fé, mentes
flageladas pela cegueira do verbo

Meu corpo é meu templo, são
beijos de libelinhas, pairando num regato de
cantigas.

Violinos, liras, harpas, violoncelos na rua dos
tímpanos repousam – os sentidos orquestram
a harmonia do dialogo, e, sentado na raiz milenária de um
dragoeiro, oiço o cristal da musica embalando
meu peito grande. Cintilam-se estrelas de
branco veludo, neste universo sem fim.

Violáceo poente, jardim dos
meus olhos, quente vermelho, caminho
leve, varanda nas pálpebras, minhas
pestanas pintando oceanos, as cores, a luz,
sombra e brilho. Sem LUZ!... não há espaço nem tempo!…
Passa um moscardo, regresso a infância bem longe …

Foram tantas, mas algumas pelos caminhos as perdi.
Daguerreótipos depositados no monte
Da minha lembrança. Singapura, ... trinta moedas,
três maços de Chesterfield, meu coito triste,
órfão do mundo, e, mais mar a fora, a ilha de sonhos,
paraíso perdido que a vida anseia.

Rosa-dos-ventos, barco do corpo
Horizonte de tigres, homens – a – vista! …
Será este meu porto seguro?... Teria que encontrar-te
de novo, oh musa perdida!... Tu que comigo
ao agro foste, escutar a fresca erva crescendo.

Planície verde, ausência de espelhos, abominável
objecto de vaidades múltiplas, imagem
negra no pós Outono da vida, rugas no coração,
Homens na plástica, olhos rasgados orbitam
sem brilho, a morte que nunca avisa quando vem jantar.

Bandeiras, estandartes, suásticas, soldados,
Guerreiros marchando, gritam ao tirano :Ave César!...
morttituris ti salutem)
bestas teleguiados colocando ovos no útero do Mundo,
selvas ardendo, mães sem sorriso,
águias apunhaladas no voo do poeta!!!!!… Mas
o poeta feito pássaro que renasce das cinzas inventa
palavras, iluminam-se livros, estes templos sagrados
de divina sabedoria.


Mãos em chama, fogo da aurora, nasce a palavra,
longos dias eternas noites… Ele, sussurrando, pergunta:
São verdes os teus olhos, ou são azuis, como a fina
linha do mar que vem dar a costa dos meus sonhos?

Oh salamandra dourada, fogueira viva,
estrada escarlate. Minhas artérias são rios de sangue,
palavras em meus lábios, cotovelos dobrados, rezo a beleza,
Fénix renasce, musica celestial, partitura divina,
divino escuto Beethoven… ( Freude Godes funkel
aus Ellisium) movimento de batuta solar, musica infinita.

E eis que escrevo este poema aos meus amigos vivos e mortos.
Mortos nas suas frias lapidas, carrego-os
no cadinho da vida… A vela cintila, uma brisa fugaz
entra e sai pela janela das persianas verdes…
a cor dos teus olhos não é?…Ou!… serão azuis?...
negros?... castanhos?... Amo-te com todas as cores
mulher vindima, uva que
etiliza meu veleiro de mastro firme. Sou capitão,
marinheiro de velas soltas nas vagas do teu pão
que como e ofereço-te a comer… Leite, manga,
nuvens, crianças, lua, a imensidão do peito, ajoelhado
beijo teus lábios em flor.

Semente da terra, origem da vida, convexa prenhez,
planta que nasce, festejamos a vida, com cavaquinhos
e violões, a navalha que corta o fio, entre a mãe
e a cria, primavera em brilho, sorrisos marfim,
catedrais de ébano, bocas vermelhas, belos os seus
rostos, rendas de Holanda, mesas coloridas, iguarias
crioulas, manjares e bailes, papilas gustativas, o
céu da boca, malagueta e melaço, cana de açúcar,
o grogue que embriaga nossas alegrias,
também a dor das nossas tristezas…





Pernas pintadas, pó de terreiros saracoteando,
juventude firme, corpos de basalto, seus sexos cheirosos,
coxas ritmadas em transe bailando,
astros que queimam o circulo das saias, carcelas em fogo
suspiros na noite,
Lua bem clara, cama de amantes,
tamarindo gemendo, flores no quintal,
coito efémero nada é eterno, transita o tempo,
La nave vá…

Ofídia fria, Inverno sem luz,
os dias as noites, manto de espinhos,
sem agua no poço o corpo morre,
pálpebras exaustas, guerra dos homens,
o frio mármore, almas cortadas,
sangue inocente, borram-se estradas, lábios sem rega,
sede de viver…

Moedas que corrompem, de fel é a seiva,
vida quebrada, peçonha no cálice, vinho corrompido
falsas abençoas, traqueia que rasga, afónica é a
lira, velas e velórios, estrelas extintas,
caule quebrado dedos partidos, canetas ardendo
escritas sangrando, frios revólveres suicidando
sonhos,… a LUZ da vida, o dia que renasce…

Montanha curva, ventre de
Mulher, parto feliz, a vida,
rio abrindo, relâmpagos, voam-se os dias, soltam-se
amarras, nas veias o sangue, meu corpo nu, multiplicação
de anjos, orações divinas, atiçam-se lareiras, meu cérebro
descansa, a morte fica para um outro dia.

Desço a corrente num barco de seda,
meus gestos, tuas mamas, teu cabelo azeviche. Floresta de crinas
teus olhos que brilham, jardim dos sentidos, os sinos que tocam,
torre ardendo, meu pénis duro, tua concha em flor
teu desejo molhado, minha língua solar, curvas
na púbis, jardim de jasmim, mariposas e pétalas,
teu profundo olhar que entoa musica….


Trompetes e tambores, violas de amor, polifonia
alegre, montes castanhos, braços e dedos,
palma das mãos, rezam-se terços, Cristo bailando,
crianças no baile, pura inocência, coroa sem espinhos,
ilhas vulcânicas, negro basalto, rosas do mar…

Maria, Joana, Bia, Teresa, rebolam-se coxas num
abrasado suor, frenesi musical, cursos de
água, rostos de negros, índios e brancos, nascimento das
ilhas, ancoradouros e portos, casa de marinheiros,
desflora dores de santas, o sal o azeite, a cruz e
os santos, bordeis nas esquinas, gemem-se janelas,
canto de sereias, tatuagens carminas, capitães
de Posídon, filhos do mundo, abandonaram-nos no mar,
tanta saudade, nos dias renascemos,
para bem morrer…

O rugir do mar, um leque de pranto,
terra rasgada, lua serena,
cantamos a desgraça, da sombreada
vida, aves queimadas, tombam-se estelas, neste céu sem fim,
lágrimas e dor, dédalo sem êxito, labirinto oceânico!!!!!…
Oh esperança!...

Buda renasce, crio caminhos, biliões de lanternas,
são pirilampos, lótus da vida, flores no trilho,
ascendo da ilha até as estrelas,
a visão do cosmos, meu universo,
sou a candeia do meu caminho.

Formam-se clarões, repicam-se sinos. Tocam-se
Tambores nos vales da ilha, colar de pássaros
flautas marítimas, pernas que brilham, seda é a derme,
corpos de cristal, incenso de mulheres, fogueira eterna,
cálice que aflui sangue menstrual, fecunda bandeira
mulher sagrada, lança e arado, meto a semente.
Flor de espiga, milheiral no vento,
peixes e pérolas, mãos dos teus braços,
coluna vertebral, pose de rainha,
electricidade no ar, horóscopo e oráculos,
destinos escritos, infinitamente juntos... possibilidades
possíveis, finito, perene, despedidas e encontros,
a vida e a morte. Naufrágios do mundo, a imensidão
do mar… aqui chegaram, novo mundo criaram …
II

Nas suas naus arribaram,
Ilhas vulcânicas, paleolítico repouso,
a primeira missa, repteis e pássaros,
baptizaram-lhes com nomes, que não
advém de Deus… mas sim dos homens,
da sua memória…


A bíblia a espada, pólvora e grilhetas,
Ninharias e missangas, homens esbeltos,
negros e negras, belos como a noite, nocturno azeviche,
reténs e chicote, úlceras e ultrajes, negreiros
malditos, homens marcados, ferro e fogo,
Nasceu o Novo Mundo, com el: Blues, el merengue, e
el uáuánko. Quatro por oito, kumba lele,
Xango, Ogum, yemanjá,
novo lado do mar, algodão em rama,
Coton Clube negro, crioulo é o jazz, que vai libertando-nos,
para renascermos…. Mas…


Com o destino, por aqui ficamos:

Dermes brancas, rosas negras,
melaço nos lábios, cor de mulato,
Peixe, feijão, milho e pilão,
Cavaquinho nos dedos, divinas mornas,
este mar imenso, que nos rodeia,
festa das águas, se Deus quiser, meu
penedo de Tântalo, sede secular, fonte amputada
língua murchada …
morremos e ressuscitamos nosso desespero…
teimosamente aqui ficamos…

Daqui zarparam, naus e veleiros; braços de pedra, arpoadores de
Setáceos. Ondas gigantes, gentes remotas,
filhos do fogo, dez ilhas secas, sede sem fim… Xango, Uatanka,
Cristo, Schalom, sou negro, índio, lusitano, hebreu,
marinheiro das ilhas, num norte sul,
cheiro a goiaba, delicioso carpo, orgasmo forte, filho
colonial, carrego em mim continentes e mundos,
querer ficar e ter que partir…

Penélope acena, com seu lenço de pedra,
lágrimas secas, dias rasgados, membros
calcinados, exiladas almas, cartas que chegam,
modas e moedas, epístolas de luto,
luto e amor, matrimónios por fotos,
procurações. Bodas em Lisboa, Boston e Paris…
vistos de entrada, cartas de chamada, convocações. Censuradas cartas,
Salazar voraz; Tarrafal farpado, frigideira queima,
pulmões rasgados, ratazanas e rondas,
camaradas delidos, carne de canhão,
chumbo de indecência, irremediável loucura, circulo craniano,
réptil milenar, nocturna demência, navalhas loucas
baionetas frias, fresca é a carne,
heróis na peleja, mortos e medalhas,
matam e morrem, anos sem fim,
há tempo para tudo, aqui no Mundo…



III
Em vagas frescas nasceu meu mar,
lavei meu corpo, nasceram mundos, pão nas
estrelas, abanico de chamas, signos e flores,
monte de rosas, sexo balsâmico, paixão de viver,
a hemoglobina quente, bíceps crescendo, luvas de
agua, mãos de pétalas, campo de folhas
bela é vida, forte o amor, pássaro que voa,
neste mar que canta… Minha viagem!…


Lábios de tulipa ardem em meu corpo,
película branca, neve do norte, rios gelados, torres néon,
estrada do paraíso, relógios de agua, mulheres loiras,
polidos vasos, porcelanas de Delft,
crinas de milho, triângulo solar, meu sexo ébrio,
embriagues de touro, planície verde,
diques e riachos, humedecidas conchas,
narciso mulato mornando na viola, canta as mulheres, de blanca luna….

Roterdão, as pontes, pernas bonitas,
bicicletas girando, seios altivos, meu peito que rasga,
nascem tulipas, aqui habito, vindo das ilhas,
broca gelada, fura meus ossos,
barcos a – vista, marinheiros sonhando,
mornas e ninfas, faróis do porto,
navegação exótica, vitrinas de sexo,
gonorreias arcaicas, falos em delírio,
desgraçada solidão, La petite mort…

Iv


Cargueiro na neblina, Oceano Pacifico,
Singapura, China, livro de Mao,
altifalantes ríspidos, uniformes azuis,
individualidades perdidas, falsas doutrinas,
num corcel de sangue, galopa a peleja, Vietname
queimado, América murchando, Marte de espada
ceifa Saigão, heroína nas veias, filhos da noite,
Senhores das guerras, assassinos perversos,
sorvem champanhe, em crânios de chumbo,
contemplo as estrelas, oh miséria do mundo!…

Constelações de palmeiras, cruzeiro sul,
pescando pérolas, homens castanhos,
Gougin pintando, a luz é vida,
na Austrália cantam, doces sábios,
Aborígenes da terra, telepatia forte; bumerangues voláteis
separando estrelas, trilhos na noite, olhos felinos,
canto nómada, seus djederutus, musicando com seixos
seus corpos bailam, oiros cabelos, narinas
largas… vieram Britânicos, raptaram seus filhos,
violência e álcool, agonia de um povo,
Sidney , Cairns, Adelaide, Pert, soltei as amarras
segui o destino… Quinze dias e quinze noites, vi o monte
Fuji. Beijei Bacho, lendo Haykus. Poesia breve, universo profundo,
meu Zen budismo, a espiritualidade do ser,
Yokohama ocidental, comboios cometas,
trilhos chiando, peixe gigante, mito de sismos…
juba de Einstein, Mc2… Openheimer devasta com seu litlle boy,
duas cidades, a bomba atómica, cadáveres em pó
flautas de bambu, Schaguaschy que chora,
quimonos de seda, gueixas no chá,
amendoeira e neve, pétalas perfeitas, mariposas azuis,
levante solar, fim da estrada do Japão parti, termina aqui,
a segunda viagem…
V
De contratos com a vida seguimos vivendo,
pela sabedoria dos homens, nos céus voei…

Do Oriente para o Ocidente; Sir
Isack Newton e a gravidade. Macieira e maçã, que
não é a de Adão, tão-pouco de Eva,
mito de Ícaro, sonho dos homens, inatingíveis mundos,
liberdade ou queda… Tokyo, Amsterdam, via Alasca,
foi um milhão de dólares, conta a historia, Ancorage na
névoa, rio com salmões. Saltam para a morte,
seu renascimento; meu caminho na vida, linhas da mão,
labirinto sem centro, a metafísica, penso no amor,
existo, penso…


Lua soberana céu argentino, rosto de mulher
pálpebras rasgadas, branco cristal, nocturnos
olhos, pestanas de seda, quimono
florido, vénias e luvas, mãos de nuvens,
papel de arroz, caligrafia zen, diploma lácteo,
pólo norte níveo, Robert Perry frio, infinito
silencio, a evolução dos homens,
maquinas voadoras, meu avião no ar,
sigo viagem, caixa veloz, perfurando sombras…

VI
“ Mas tudo regressa, ao ponto de partida!...”


Roterdão meu templo, rezo as divinas,
bicicletas voam, meu falo sulca, regresso a Ítaca,
rosto bronzeado labareda ardendo,
I,am a sex machine; objecto sexual, Europa mulher, minha
concubina, sou bailarino leve, pétala no vento, furação coreográfico,
bailando James Brown… It is a mans mans World… divina tragédia
visto de estadia, aborta aos três meses, barco ou fronteira,
comboios de gado… Lisboa alerta, Salazar seu esqualo, capanga mor,
Tarrafal demente, colecciona cérebros,
misantropia perversa, esquadrões da morte,
optei de novo, o caminho do mar…
VII

Orinoco serpenteia, águas sem fim,
auríferas areias, aves coloridas…
lembro-me de Simão; …não cireneu, do morto na cruz,
mas de Bolívar, el Libertador… que
Em Santa Marta morreu, febril seus sonhos,
gasta utopia, vida e la muerte, Del General,
todos os dias morremos na cruz…

Avançando na selva, cântico de Xamanes escuto,
tatuagens negras, bambus e flechas,
pepitas douradas voando nas lâmpadas,
urros de fantasmas, los conquistadores,
sangue derramado, índios vestidos, gládio e livro,
verbo de Deus, homens centauros, é a profecia,
a pólvora e a cruz, Bartolomeu de Las Casas…
Meu barco acelera, contra a maré,
minha água turva, Amazona queimada,
morte e moedas, arquitectura efémera,
Em porto Ordaz, no Novo Mundo, cheguei …

Cicere é puta, Ulisses mareante,
Inverte-se o canto, Homero enxerga,
Cicere é índia, enfeitiçada por dólares,
Ulisses fode… cama molhada, charco de esperma,
curral de putas, azares da historia,
Coca-Cola bebem, elixir dos deuses,
Lágrimas sem sal, abraços sem flores, beijos sem água,
doces mentiras, o dia chega,
benzeno nos tanques, cheira
a veneno, passos perdidos, mar encrespado, sigo viagem,
To the Américan dream, Filadélfia á vista!!!!!… apertem atracas,
minha nave chegou…
VIII
De amor fraterno advêm o nome, cidade antiga,
Dionísio seu deus, antes da Americana, foi a primeira,
o universo gira, nada é eterno, Filadélfia ontem,
Filadélfia hoje, o novo império, a sua historia,
a pequenez dos homens, grande é o tempo,
metrópole fria, letreiros néon,
dragões são carros escarrando asfalto,
vadias em delírio, querem chupar-me,
Roosevelt por 100 dólares, usa peruca,
narinas largas, o crak despacha,
a Independence Hall, a constituição,
sino da liberdade, Poe meu poeta; corvo agourento
fura meus olhos, deprimente é a neve, minha tristeza,
imenso lamento, Poe delirando: Tudo acabou!!!!!...- Tudo acabou!!!!!!!Digam que Edy, já não existe…

constituição e liberdade, negros linchados, strange fruits
nas arvores. White Trash nos Guetos, latinos na coca…
América! América! … Ginsberg é poeta, Ginsberg gritando:
América, América!... quando hás de enviar, teus ovos a Índia????!!!!!…

Triste nas brumas, Filadélfia ficou,
rumamos para o norte, velas esticadas cristas na quilha,
marinheiro na gávea alto é o céu;
arranha-céus fálicos carros e trombetas, azáfama de loucos
crimes com arte, cidade de insónia, psiquiatras a quilo,
cavalo louco, time hear is mony;!!!!
Estátua da liberdade, não liberta almas;
Manahata, por 24 dólares nova Amsterdam,
meus irmãos Lenape rindo dos brancos,
o Sol e a Terra, a nada pertencem,
bastam 7 palmos quando a morte beijar.

Wall street não para…
Cães pelejando salivam gás,
Serra Leoa decepada seus diamantes…
África fodida; Nwe York- Nwe York…
Hudson seu rio, neblina e agua,
Harlem e Bronx furam-se veias,
Hooper e as pinturas, que solidão!...
Peguy Gugenheim na arte é poesia. Quens rainha,
Miles Davis azul, a kind of Blue; Central Park verde,
respira-se vida,
Nações desunidas, guerras sem fim. Mata o forte,
o fraco morre…
esta nova babilónia, foi berço de Índios,
de traqueias queimadas, agua de fogo,
Negros no Soul, Vénus é rameira,
I,am a saylor, From Cape-verde islands
arquipélago seco, seco, mas sabe…
Mas sabe que Hollywood é
tempo de partir, não vou para as ilhas,
proibido regresso, fascismo espreita, terror e morte…
Noite tenebrosa, grávida de punhais!…

IX



Nas vagas da vida avistei Europa,
cansado do mar purguei o sal; pelas estradas caminhei,
em Helvécia cheguei..
Desenhando gentes, pássaros e nuvens,
Esposa, amizade, filhos e arte,
Amor pela arte, arte da vida,
POESIA sublime navegam os dias…

Regressei as ilhas, foram 15 longas luas, escutei o Cântico da
Manhã Futura!…


Sou peregrino, nos trilhos do mundo,
Queda e ascensão, a vida é assim,
alegrias e tristezas, sigo o caminho, como
poeta cantando, novos mundos criando,
divas do meu destino ofereço a luz,
meus 55 anos formosos, Monte Verde
sagrado, neblina mística, suave frescura;
minhas narinas amplas, oxigénio no cérebro,
horizonte e utopias, a imensidão do mar…
15 por 23… São Vicente flutua!…

Suspensa no ar, a ilha flutua,
pensamentos brotando, serenas jornadas;
doce memória, sigo avante, a vida é bela,
amo-vos mulheres, musas divinas,
candeia altiva, lua celeste, alvorada em parto, razão de viver…
vou adiar a morte, para um outro dia…






















POEMAS DE INQUIETAÇÃO

Pálpebras de pedra
Não observam estrelas! …


Cães de esófagos podres,
Ladram nas esquinas
Do tempo

Com fatos Armanni,
Traficam peçonha,
Nos becos do Mundo,


Crânios conspurcados
Dinheiro ensanguentado

Bailam demónios,
Em festividades necrófilas

Viva o petróleo!!!!!!!!!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

POEMA RURAL

Poema Rural

Chão molhado, cheiro a terra, e a bosta de galinha,
Uma lagartixa verde, papado por um galo; da janela da vizinha,
Gemidos de prazer; hora de sesta;
Mandaram as crianças, irem brincar;
Imitando seus pais, gemem de prazer
Vão aos currais sodomizar cabras…

No topo da colina, cavalos e dragões
Num azul do paraíso viajo a Austrália,
Um aborígene pintado de ocre, tem no corpo
Estrelas, entoa cantos do começo do mundo…

Passam duas crioulas, de chocolate e ébano,
Giro a cabeça, seus rabos perfeitos, saracoteando,
Austrália apaga, desaparece nas brumas,
Com água na boca engulo saliva, dobram uma esquina,
PORRA!... Lá vai o sonho!

DO MEU LIVRO O AZUL E A LUZ

Irei pela ruas do Mundo delirando
Com o cheiro (a)mar das ilhas
Farei que os meus cabelos de mil pássaros
Voando, sejam a anunciação da contiguidade

Sorridente ternura de gazela
Mansos olhos na floresta
Nuvens de beijos relâmpago
Chovendo em quartos de relva

Árvore raiz, lua de marés
Lábios de água no zénite
Saciando amantes da luz

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

DO MEU LIVRO - O AZUL E A LUZ

Tinhamos amado no vazio, e a serena
Luz poente diluindo na noite de pedra
Carregava um cheiro a magnólia, na
Nossa patética solidão de naúfragos.
Aurora de inquietação solar fui ao teu lado;
Na deriva cósmica dos meus pensamentos,
Beijei constelações de melancolia...
Na cegueira de um reencontro triste,
Desvaneci-me na ilha do meu sentir,
Naufraguei no frio dos teus beijos,
Terrivelmente, ausentes de luz.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

DO MEU LIVRO O AZUL E A LUZ

Toda a grandeza deste Planeta...
Será que algures no Cosmo existem
Seres que pintam girassóis a Van Ghog
Ou compõem sinfonias lindas, como as de Beethoven?
Oh Terra de encantos e desencantos
Girando em música e gangrena...
Em 1913/ 14 I guerra Mundial, Verdun (700 000 Mortos)
Em 1915, Einstein descobre a teoria da relatividade
Hitler escreveu Mein Kampf em 25, Kafka o processo
Fleming dá ao Mundo a penicilina...
Em 53 nasci neste mesmo Planeta e, hoje,
Que escrevo este poema, morreu Jorge Amado,
Talvez algures, nasceu um ditador...
VIVA O MEU PLANETA AZUL, AND THE SHOW MUST
GO ON!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

DO LIVRO: O AZUL E A LUZ

Quero ser livre como as nuvens
Errante como o vento e zebras
Das savanas.
Leve será a luz dos meus dias
Nuns seios de jasmim.
Deixai-me embriagar suavemente de ar,
E respirar profundamente, minha vida de poeta;
Assim como o vento e a luz,
Vivo em palavras que se perdem
Em si mesmas.
Tchalê Figueira

sábado, 19 de fevereiro de 2011

VEM,VAMOS FESTEJAR

Vem, vamos festejar o dia,
Porque a água do rio passa,
Nunca regressa…

Tua mão de fina orquídea,
Agarrada a minha!...

Vem, vamos festejar,
Vamos ver a lua navegar…

Los coiotes uivam, la luna passa!…

Vem, vamos festejar…
Fazer amor nas dunas douradas
Da grande praia,
Seu tecto de estrelas, fantástico é a ilha…

Vem, vamos festejar,
Égua e cavalo, num leito de nuvens,
Galopando num horizonte em chamas.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

ETERNIDADE


Três tururus no deserto animam
Um baile de torvelinhos com trompetas de vento,
Um peregrino com um cajado de sonhos baila.

Um lama tibetano, varre uma pintura tântrica na areia…

Desvanece o bem e o mal num sopro,
Toda a beleza do mundo, assim acaba,
Todo o cansaço também! …

Um milhão de anos-luz,
Apaga num suspiro.
Eternidade...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

REI AFRICANO

Rei Africano

Poente fogo, lança inerte… gasto caçador,
Usa relógio, meridiano sem luz
Berloques do norte, “plástic is fantastik”
Falamos de leões,
Dente de felinos, seus troféus remotos.

Minguada lua, mirradas mulheres
Tambor fraco, dor nas estrelas
Vírus violentos, consumidos olhos,
Cada segundo, a morte almoça…

Velho africano usa calções,
Perdeu o salto, não beija o sol
Casa de lata, sonho apagado
Na cidade grande, porteiro nocturno…

De uma limusina, sai um fantasma,
Rei africano, abre-lhe a porta,
Faz-lhe uma vénia, palmas abertas
Jaguar ferido, orgulho secando…

sábado, 12 de fevereiro de 2011

OS PURITANOS


Os puritanos não gostam de palavrões
Mas nas suas cabeças sujas deliram;
Vão as igrejas, sinagogas e mesquitas,
Expurgar seus pecados com um tal de Deus,
Ficam escandalizados com espíritos livres,
Que escrevem o cru real do mundo;

Charles Bukowski para queimar no inferno
Que só existe na cabeça de imbecis; e,
Aqui na terra, este inferno, com guerras, assassinatos, pedofilia;

Os puritanos, lêem a bíblia, também talmude e o alcorão,
Seu Deus cruel pedindo a Abraão para sacrificar seu filho,
Se fosse hoje, era processado, por intento de assassinato,
Delírio, loucura, fundamentalismo;

Henry Miller amaldiçoado por escrever livros
Sobre o amor, sexualidade, coito e prazer;

Estes puritanos, abandonando cinemas berrando,
Blasfémias!!!!!!! Escandalizados com “ O ultimo tango em Paris”
Ou “Je te Salu Marie” de Jean Luc Godart ;

Os Puritanos abominam a nudez, e… se a roupa
Fosse salvação do Mundo, ninguém nascia nu…

Alivia a dor, oh puritano paspalho com o amor,
Fornicando sempre a teu belo prazer,
Fazendo amor com quem quiseres,
Iluminando teu dia, despindo a capa, de puritano pecador.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

BUROCRACIA SENEGALESA

Burocracia Senegalesa


O safado do Djibri nos faz esperar.
Já estivemos em mais de dez escritórios
Os guardas vêm televisão e bum bum…
Carimba seu filho da puta, carimba e cobra…

Num banco mais duro que o penedo de Gibraltar
Eu e Mauro esperamos pelo safado do Djibri…
Sabe patrão!... Ainda falta mais tampom
E mais 200.000 Francos CFA, se não, os quadros
Não podem sair!... Compreende Patron?...

Sentados no raio do banco,
Flocos de tinta, caiem do teto da temerosa alfandega,
Parece neve caindo num filme surrealista…
Umas gazelas senegalesas passam rebolando o cu.

Entende patron?... mais selo e carimbos, entende?
E não se esqueça dos meus camaradas aqui comigo!...
Sim Djibri, sim! Seu cabrão!...
Se Franz Kafka
Trabalhasse na alfandega senegalesa, não morreria
De tuberculose… seria internado num manicómio
O que irá acontecer comigo, se não sair desta espelunca…

Foi um dia de Frankenstein! … Djibri levou-nos 400.000 CFA
Disse que tivemos sorte, foi com isenção alfandegária.

Todavia não sei, qual o papel de Djibri
Na maldita alfandega!...

Com os quadros no camião, gritei:
Vai-te foder Djidri!!!!
E ele:
Merci patron, merci!,,,
Quando no ocaso a luz abandona o dia,
teu nome, como um barco de brisa entra;
Navega em círculos de pássaros,
na minha memoria teu nome...
Abre a noite o seu leque de estrelas,
um diamante de galáxias percorre
meu corpo, e, quando chega a minha mão esquerda,
lado do coração, aberto te estendo a jóia, reluzindo
em infinitos beijos...
Quero dizer-te, fonte cristalina, amor, agua,
minha musa, minha casa, templo de sonhos
agradáveis; rosa que a abelha seu doce néctar bebe...
A luz abandonando o dia, a noite és tu; luz,
em todas as estrelas no universo.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

CANÇÃO PARA TI

Canção para ti:



Esta é a canção,
Musica que penetra…

Cisnes luminosos, gotas de água,
Seus bicos lindos, de brilho solar


Dez mil pássaros voando,
E o instante, para te beijar.

domingo, 30 de janeiro de 2011

SANJOM REVULTIÓDE

Sanjom revultióde

Rostos de peregrinos
Com mantos de borboletas
Na terra vermelha dançando…

Fumaça feito lençol,
Espalha no deserto a sua cor,
De manto escarlate dança, um santo
Descalço das ilhas…

São João azeviche baila,
África antiga de estrelas,

Homens neste oceano cantando! …

Tambores ancestrais rufando
Transe aluarado dos sexos
Coxas saracoteando cio
Atracam num banho de suor…

Gentes remotas em elevação,
Fecundam vida nas ilhas,
Com seus rosários de asas
Voam neste arquipélago de um dia.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Fábula :

Dou-te a lua… diz macaco disfarçado de tribuno,
É carnaval!... (Todos os dias, é um carnaval)
Macaco mor e o seu pelotão de tubarões,
Dentes aguçados, prontos para matar…
Esqualos com permissão, agentes 007 do mono campeão,
Fizeram juramento, na pele de um cão

Com pátrias, e estandartes, seus carros
Com potentes altifalantes. Dizem ser
Salvadores da mediocridade,
Cantam hinos a salvação…

Batráquios repletos de vento,
Coaxando na parada,
Recebem esmolas do seu macaco mor.
Sapo lambendo fel, nas urnas de votação
Macaco rei, feito gavião, vaidoso do poleiro voou.

DEDICADO AO MÁRIO E AO VASCO

Para o Mário e o Vasco, uma tarde no Monte Verde


Num fonólito barco de musica,
Mário e Vasco, percutindo cantavam
Melodias da pedra – idade dos Homens

A neblina abria e fechava portas…
Hieróglifos de fogo, relevos do mundo
Rumor do mar, luz gizando.

Zumbido de moscardo voou bem longe,
Plantas e líquenes dum cheiro mágico,
Minha infância, casa bem longe!…

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Vomito no cálice do Papa

Vomito no cálice do Papa:

Vomito no cálice do Papa
Na sua sagrada igreja
Plena de sagradas mentiras

Vomito no cálice do Papa
Pela escravatura abençoada…

Milhares de negros e índios sacrificados…

Vomito no cálice do Papa
Na sua santa inquisição,
Que na idade media…

Mais cristãos mataram

Que os demónios da suástica, a
Judeus e ciganos na segunda
Guerra Mundial…

Vomito no cálice do Papa
Pela luxúria desmesurada
Do seu templo…

Cristo usava sandálias…

Vomito no cálice do Papa
E na sua senil politica
Contra o preservativo…



Vomito no cálice do Papa… e

(Deixai vir a mim as criancinhas)

Pois serão fornicados
Por sacerdotes pedófilos
Que hão de queimar no inferno!!!!!

Vomito no cálice do Papa
Que condena a homossexualidade
De forma hipócrita e diz que celibato
Não é a causa!!!!…

Vomito no cálice do Papa
Que come corpo e bebe
Sangue…
Sua religião de canibais
E vampiros!!!!!!

Vomito no cálice do Papa… e,
No cálice de todos aqueles
Que usam a religião,
Para pérfidos poderes!












terça-feira, 25 de janeiro de 2011

QUE SEI EU SOBRE GALAXIAS?...

Que sei eu sobre galáxias e mundos inatingíveis? …

Sobre mim, sei que sou célula desfragmentando,
A metafísica não me inquieta, a morte, fim da viagem…

Observo a maravilha de uma flor na rocha abanando,
Pedras gizadas pelo vento estendidas no deserto,
O voo de um pássaro, oxigénio em espiral,
Vozes de crianças cantando, espaço de luz…

Como flutua a terra no espaço?...

Newton acendeu a lanterna,
Fogo foi o caminho no conhecimento dos homens…
Arte,
Carroça de luz, atravessando o milagre dos séculos…


A vida é um rio que nasce no sagrado ventre das mulheres,
Água que corre para a jusante das palavras efémeras,
Margem de um rio, porto de calmaria e noites…

Oh memória, domicílio de bardos,
Narrando a odisseia dos homens…

Que sei eu sobre galáxias e mundos perdidos?...
Sobre o enxame de pérolas, que são as estrelas no universo?...

Sou célula desfragmentando,
O fim da viagem… a morte!



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

UM PASSEIO SURREALISTA NO ARCO

Passeio Surrealista no Arco

Entretidos, estão sentados debaixo de um arbusto numa conversa sobre a transmigração de Buda para o corpo de uma barata radioactiva, que sobreviveu a bomba atómica, Little Boy, em Hiroshima… no horizonte, a baleia Jonas levantou voo em direcção a Ribeira de Janela, onde um comício de bruxas no local conhecido por Esponjeiro, liam num almanaque Bertrand, uma sentença a fogueira a Torre Queimada, e mais uma cambada de inquisidores, que teimosamente recusavam, que as bruxas de Janela, não tinham voado antes dos aviões dos TACV… Em Sinagoga, com mandioca fresca, festejaram a chegada de uns náufragos Judeus a caminho do Brasil, numa nau que o danado de Pière D, Ailly na força da sua insana maldade insistia ver, estes filhos da estrela de David num caldeirão de sopa de tartarugas…
Num concerto Barroco em Fontainhas, um flibusteiro francês, mais cem freiras raptadas pelo folgazão pirata numa caravela Portuguesa; bailavam… Belas freiras oriundas do famoso convento em Veneza, onde Dom António Vivaldi tocava as suas maravilhosas musicas barrocas… Tinham sido raptadas a norte Santo Antão, no mar da Nova Holanda, em viagem para o Novo Mundo… Nuas peladas e cheias de rum nas suas cachimónias estas virgens ensinaram aos nativos dançar Mazurca , Contra Dança…e, Nhô Nau, séculos mais tarde, cantando num patuá crioulo misturado com francês, e gentes tocando e dançando; musica sincopada, rituais antigos que vieram do além-mar … da África e da Europa…

Com quebrantes amarrados nas suas barrigas inchadas de lombrigas, quebrante contra as feiticeiras, meninos nus banham nas ribeiras e, um Capotona, alma de outro mundo que quis abafar um noctívago mas não atreveu atravessar a ribeira, por estar resfriado a alma do outro mundo e… gritando ao noctívago diz: Vai! Vai!... Tens sorte meu sacripanta! … “Em vida, tinha medo da pneumonia!” …

Debaixo do arbusto, com mais de meia tonelada de vinho nas suas cabeças, os filósofos, divertidos com as complexidades da vida, calaram quando uma mulher, mais linda do que os raios de Sol que brilhavam nos seu seios, passou montada num cometa…

O Lezemparim caiu sobre a Praia dos Achados e Perdidos, uma águia voou para a sua gruta cheirando a peixe; piou três vezes, despedindo dos poetas, que regressavam em passos lentos para o outro lado da Ilha…

sábado, 22 de janeiro de 2011

DA MINHA ILHA OFEREÇO-TE A NOITE

Entoam músicos
Na floresta da vida
Canções de amor…

O timbre da harpa
Mariposa dócil…

Labareda de luz
Palácio altivo
Lua no céu,

Da minha ilha,
Ofereço-te a noite…

SE DEUS NÃO TEM MEDIDA, AMOR AINDA É MAIOR!

Quando Salomão Levy recebeu o aziago telegrama anunciando a morte do pai, soube de seguida que tinha que abandonar a sua amante a baronesa dona Felipa de Ferreira, as óperas no teatro D. Carlos que tanto adorava, e as farras em Lisboa, naquele tempo turbulento. Apreensivo, (talvez pensando na herança) teve que embarcar no primeiro paquete da companhia colonial pronto para cumprir o seu destino. Numa manhã chuvoso e triste de Dezembro, bem cedo, zarpou num vapor no cais de Sodré, rumo à sua ilha natal São Vicente, onde lhe esperava grandes responsabilidades. Sendo o filho primogénito, irmão de mais cinco irmãs que também viviam naquele tempo à grande e à francesa na capital lusitana, à custa do seu pai, Isack Levy, próspero comerciante na cidade do Mindelo que, ao chegar a casa depois de um bom negócio, despejava o conteúdo dos bolsos… libras esterlinas em ouro, que atirava para a cama ornada com uma bela colcha da ilha da Madeira e, de seguia, em alto e bom som, gritava: Mulher!... Hoje foi um dia e peras!

- Após dez dias de viagem comendo sopa e má comida no enfadonho e lento barco a vapor (o tempo cura todos os males) Salomão Levy sentiu-se conformado com a decessa do progenitor, numa manhã quente de Dezembro, nos trópicos, avistou o ilhéu dos pássaros, com a sua forma cónica de falo em erecção, de repente, sentiu saudades do sexo cheiroso, da baronesa dona Felipa de Ferreira.

Desembarcou com um sentimento de felicidade do vapor ancorado na bela baía do Porto Grande, por uma escada de quebra costa. Ágil que nem um gato, saltou para dentro de um dos vários escaleres da família que viera espera-lo, por ordem da senhora sua mãe, dona Rosa Levy; um belo escaler de seis remos, tripulado por fortes remadores negros mulatos e mestiços, empregados da firma Levy. Remando com alegria, contentes com a vinda do jovem patrão, num diabo esfrega o olho, chapinhando e puxando na voga com perícia os longos remos, vinte minutos passados, faziam uma agradável atracação no Cais da velha Alfandega.
Com as pernas e a cabeça todavia sentindo os balanços dos dez dias de viagem, caminhou até a enorme casa colonial da família, mais ou menos a cem metros do cais, e deparou com um conjunto de senhoras trajadas rigorosamente de preto, do bico dos pés à cabeça. Atónito, pensou para os seus botões, que a tradição de chorar os mortos, em nada mudara naquela ilha. - Caramba! - Até os brincos das carpideiras, estavam forrados de preto!
Reconheceu algumas das pranteadeiras, umas choronas dos mortos na sua infância aqui na ilha, todas envelhecidas e com rugas da sua vida miserável, estampado em seus rostos, de corvos agoirentos.
Era inevitável! Tinham sido contratadas pela senhora sua mãe, para uma recepção teatral de falsas lágrimas.
Salomão Levy furioso, da fé que as carpideiras estão todas cheias de grogue na testa, tentam ensaiar um carpido mas são autoritariamente postas no largo da rua pelo novo patrão que de forma ríspida, fala nestes termos a senhora sua mãe: - Senhora minha mãe!... O senhor meu pai morreu, sou doravante, o homem desta casa… Choramingas não trarão de volta o meu pai… Todos sentimos com profunda magoa a sua morte, mas a vida continua minha senhora! … Gostaria… gostaria de saber exactamente, a verdadeira causa da sua morte!
– Chocada com a frieza polar do filho varão. Dona Rosa Levy, quase desmaia, pede um copo de água com açúcar à sua empregada. Depois de sorver uns quantos goles do adocicada liquido, de seguida cai num sofá vermelho, com as pernas a tremer. Bebe mais algumas gotas e, com as mão a tremer, poisando o copo numa pequena mas luxuosa mesa de prata marroquina. Segundos depois, suspirando fundo, depois de uma pequena pausa, de forma lacónica, começa a relatar: “Teu pai, que a alma descanse em paz, tinha aqui na ilha, muitos inimigos. Ao regressar a casa depois do funeral do nosso amigo, o Dr. António Silveira, foi a casa de banho, lavar, e fazer a barba… Meu Deus!... De repente!...vindo da casa de banho, oiço a voz do teu pai, num terrível lamento – “ Mataram-me mulher!” – Corri assustada para ver o que se passava com o meu Isack, deparei com ele morto, rígido, caído no chão com a boca cheia de uma espuma branca… Dizem…dizem, que foram os militares e os padres aqui da ilha… Foi assim!... Ao regressar do enterro do seu velho amigo, antes de vir para a casa, foi prestar as suas condolências a família enlutada… como naquele dia, fazia um imenso calor em São Vicente, pediu um copo de água fria a empregada, foi-lhe oferto uma limonada envenenada, que ele inocentemente bebeu… inocentemente meu filho! … Segundo os nossos amigos mais íntimos, foram os inimigos da maçonaria e tu sabes que o senhor teu pai era grão-mestre da loja e tinha muitos inimigos no clero e na tropa.

- Salomão Levy, naquele remoto dia em que a mãe contou-lhe de forma triste, o suposto homicídio por envenenamento do seu querido pai, jurou vingar a sua morte; mas os anos foram passando, ele esqueceu por completo, a sua vendetta.
- Maravilhado com as lindas crioulas, cheio de dinheiro que fluía cada vez mais com o prospero negócio dos barcos, esqueceu da promessa de vingar o pai.
Fornicou tudo quanto era cama na ilha… Casadas, solteiras, virgens; teve imensos filhos legítimos e ilegítimos e, muitas das mulheres que não suportaram o destravado comportamento mulherengo do Casanova, após alguma pressão, com a ajuda pecuniária do fornica dor, Salomão, emigraram para as Américas, outras para o velho Continente.

Continuou ganhando dinheiro aos montões, escutava com nostalgia óperas dos mestres Italianos no sobrado do escritório da mansão, onde papava muitas das suas amantes, num catre americano. Tudo era perfeito, tudo corria as mil maravilhas, mas o destino, tem das suas!

- Num belo dia de Setembro em que Salomão Levy andava pelos lados do mercado de peixe, na faina de negociar mantimentos para um barco inglês, deparou com a mulher que lhe desmoronou por completo, seu charme de galo machão.
Pelo mais incrível que pareça, o Dom Juan, apaixonou-se pela primeira vez na sua vida. Ao ver tanta beleza resplandecendo daquela mulher, dirige-se que nem um bólide a preciosidade e, com a conversa fiada que está acostumado a seduzir mulheres, aborda a mulata Olinda, mas ela não dá bola. Tenta alicia-la com chocolate Suíço, em vão! Como tem que terminar o seu importante negócio com o barco, retira-se completamente exaurido, mas não rendido.
Perturbado com a tampa, da beleza das belezas, ele fica aflito, mas mais tarde, através dos seus informadores, vem a saber que Eulinda é sobrinha de um comerciante menor, um orgulhoso, que é conhecedor da má fama de Salomão Levy, o destruidor de inocências. Tinham proibido a sobrinha, qualquer tipo de conversa, com o mal afamado comerciante.

Desesperado mas sem êxito, Salomão Levy meses sem conta tenta aproximar-se da menina, mas ela não lhe dá troco. Olinda a bela continua firme e serena, mesmo sabendo, que Salomão Levy, é um dos mais belos homens aqui na ilha.
Enfermo de tanta paixão Salomão perde o apetite, deixa de jogar o seu uril, golfe e futebol e, o mais estranho, milagrosamente pára de fornicar as suas inúmeras amantes. Jura pela alma do defunto seu pai que irá desposar Olinda, custe o que custar.
Um belo dia, exausto de tanta insistência, num dia de céu azul de Maio, enche-se de coragem, vai ter com os tios de Olinda, a mulher que não lhe dá tréguas na sua cabeça, nem um segundo se quer.

Trajado com maior elegância possível, vai bater à porta do comerciante, é recebido com frieza; por delicadeza convidam-lhe a entrar, polidamente lhe é indicado um sofá de couro gasto para ele se sentar. Lhe é oferecido um grogue que ele educadamente recusa, por ser homem que afirma, que, a única bebida alcoólica que ele adora, são as mulheres!
Tamanha é a aflição deste Salomão reconhecivelmente apaixonado, ele quebra toda a frieza da cerimónia dos tios de Olinda e, sem papas na língua, vai directo ao assunto. Os tios, humildes, mas de um orgulho incorruptível, escutam atenciosamente as palavras do galam, na sua intenção de casar com Olinda, mas desgraçadamente para Salomão, eles são inflexíveis e indiferentes a sua prosa, recusam sem qualquer argumento, o pedido de casamento do galam Salomão Levy.

Desesperado, sai da pequena casa do humilde comerciante; cabisbaixo deambula pelas ruas de Mindelo, mas a sua teimosa cabeça não desiste de Olinda e jura ir até o fim.
Com o tempo, os tios de Olinda, fazem tudo para desgosta-lo da sua bela sobrinha, soberano, Salomão Levy vai até o fim! Rapam Eulinda o seu belo e comprido cabelo a zero, Salomão não desiste. Acha-a todavia mais bela do que antes, e a onde quer que ela vá com a sua cabeça rapada, ele Salomão Levy está presente, pairando a sua volta.
A família da jovem mulher mesmo assim não verga perante tamanha insistência do cavalheiro, um dia pensa ter encontrado uma nova artimanha, para desgostar o comerciante Salomão Levy, definitivamente da bela Olinda.

Foi terrível! Os tios, fartos do comerciante, tiveram uma abominável ideia, pensaram ter encontrado a solução definitiva, para a desistência do cavalheiro.

- Ora! Naqueles tempos no Mindelo, a maioria das casas, não tinham instalações sanitárias, as pessoas defecavam em latas, que, às nove da noite, com a cidade vazia de transeuntes, eram transportadas até um sítio chamado Caizim, onde eram despejadas as fedorentas latas.
Um cheiro nauseabundo irrespirável invadia as ruas do Mindelo, naquela hora em que nem os cães ladravam e… era
só visto, o cortejo das párias mulheres, mal pagas, carregando nas suas cabeças, aqueles esgotos aéreos repugnantes.
– Olinda, fora maldosamente decretada pelos tios, a fazer aquele ofício de escrava, no intuito de Salomão Levy, desistir do seu querer, mas não foi o caso! Todas as noites, às nove em ponto, na ponta da esquina da casa da amada, Salomão espera por ela, segue a traz de Olinda que vai caminhando envergonhada com passos lentos atravessando as ruas da cidade com o conteúdo fétido. Elegante e perfumado, sem qualquer tipo de nojo, acompanha Olinda sem pronunciar palavra, até a cloaca da cidade. Olinda, ao terminar o despejo, silenciosamente regressa a casa, ele ao lado dela em silêncio… Mas tudo tem seu tempo, acima e abaixo neste Mundo. 24 Meses passados, Olinda, gradualmente começa a trocar palavras solta com Salomão Levy, um belo dia enche-se de coragem, não aguenta mais, confessa a Salomão, que também o ama perdidamente

Morrendo de felicidade Salomão dá a língua nos dentes fala para todas as pessoas que encontra nas ruas, conhecidos e desconhecidos, a notícia espalha pela cidade, e, com a boca do povo a pedir justiça, sem mais estratégias maldosas e argumentos, os tios de Olinda dão a mão à palmatória, meses depois vão ao altar Olinda e Salomão, na maior felicidade deste mundo, depois de tantos percalços.
A enorme tenacidade de Salomão Levy, foi salva pelo amor, esta força que Eugénio Tavares poetizou, e cantou com estas palavras: Se Deus não tem medida, amor ainda é maior!...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

NA CIDADE

Na cidade

Como um alazão desventrado a chuva cai da cinzenta nuvem
Bátegas de água destilada resvalam na montanha escabrosa
Bicicleta com donzelas montadas, pela ribeira viaja,
Meus olhos um lápis, pintando o entulho da cidade rasgada.

Com grémios pomposos fraudam a solidão
Lábia sem propósito nem candeia,
Princesas e príncipes urbanos com asas de lama…

Abanando abanicos de vaidade, avançam pela cidade,
Escassez de espírito, naufragada agnosia,
Canto de sereias, suicidando a poesia…

Mais náufragos que Ulisses,
Num banquete de navalhas brindam com terebintina,
A morte frívola de um dia vazio.


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

UTOPIA DOMESTICADA

Utopia Domesticada:

Na nossa existência obscura,
Agarramos areia
Com pauzinhos chineses…

Sísifos obediente
Carrega a pedra…


Cavalos cansados, mil anos de pelejas,
Lanterna brilhando, justiça ofuscada …

Diógenes morre de tédio, discursando
Nas Nações Unidas…

Homero, Milton e Borges,
Três mosquiteiros cegos…

Bibliotecas incendiadas…

Poetas com extintores,
Escrevem
Versos sem fogo…

Utopia domesticada,
Utopia comprada,
Piruetas num circo de hienas


NA BIBLIOTECA

Na biblioteca…Um tigre de porcelana
A lingueta na chave de um enigma…
Um bordado cai alcantilado
Nos livros poeirentos de uma estante
A aranha viúva espera por Ulisses…
Toda a sabedoria do Mundo
Cabe num grão de areia
Blake tem os olhos de Milton
Homero tem uns binóculos
Nocturnos do exercito Americano…
Thalasa, Thalasa…. Terra… a… vista!!!!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

TCHALÊ FIGUEIRA NA INFLUX CONTEMPORARY - LISBOA


TCHALÉ FIGUEIRA‘DO ARCO DA VELHA’26 Fevereiro > 09 Abril 2011Qua > Sáb 14 h > 19 h


PINTURA INSTALAÇÃO POESIA
DO ARCO DA VELHA

O imaginário é, sim, o que existe. O real, se me permitem, é algo puramente inconsequente, algo que não se traduz, algo impossível de concretizar. Conhecemos as geografias e os corpos em nosso redor através da imaginação que cultivamos. Quando a imaginação e o desejo são escassos, os amores e vontades dos outros tornam-se loucuras.

Invariavelmente, nós aqui, neste lugar, somos construídos segundo relações flexíveis entre a miséria e o desejo. O desejo consome e exige a urgência da materialização do faz-de-conta. No Carnaval, tal como no plano multi-dimensional da imaginação, a Rainha e o Rei colocados no cimo do andor desenhado pelo artista, que esta terra quer sempre ter como anónimo, são escravos dos nossos desejos de chegar mais além, de cada vez ser mais outro e o Outro. Esconde-se o feio que engloba gente. Gente que, apesar de ser parte de nós é, inexplicavelmente, considerada diferente.

A irreverência é naturalmente constitutiva da arte que faz perguntas, a arte que exibe o diferente enquanto nosso, a arte que se quer posicionar dentro do campo do político e por isso é Pecadora. O questionar obviamente não desmembra o autocratismo, mas revela desejos de mudança. No caso particular do pintor, revela principalmente a vontade de mudança para estados de sensibilidade e empatia no âmbito de um contexto abrangente em que o Homem, Deus e a Verdade foram declarados mortos no mundo real e que somente vivem no campo do exercício dos poderes. Apenas nos restam as vontades individuais de imaginar os desejos dos outros como nossos.

Desde a Rua da Praia, no Mindelo, num atelier com as portas abertas para o mar, Tchalé Figueira, sempre independente e certo das suas vontades e procuras, compreende o compromisso de ser “agente criativo”, aqui neste lugar insular. O articular de perguntas e desejos em prol de si próprio mas também em prol dos que o sistema define como o “Outro menor”, os que o sistema teimosamente “circum-navega” porque, em hora de eleições, um grogue ou uma T-shirt servem como suficiente sedução.

Tchalé explora a relação entre o acto e a crítica social. Tristan Tzara, Max Weber ou Jean Dubuffet sublinharam algumas directrizes que permitem compreender a posição do pintor: consciente, sensível e critico e, no entanto, determinado na perseguição do exercício da pergunta. Na obra de Tchalé Figueira, o político, a prostituta, o mendigo, o paupérrimo, o medo, a vergonha, a vaidade, a superficialidade, a tensão ou o desejo estão presentes, vivos e pulsantes. As telas gritam-nos perguntas acerca do nosso próprio papel.

Irineu Rocha











Tchalé Figueira nasceu em 1953 na ilha de S. Vicente, Cabo Verde.
Pintor, músico e poeta, Tchalé é hoje em dia, indiscutivelmente, um dos ícones principais da Arte Contemporânea em Cabo Verde e seguramente o artista plástico caboverdiano com maior visibilidade internacional.

‘Do Arco da Velha’, é a sua primeira exposição individual na INFLUX CONTEMPORARY ART.




Irineu Rocha nasceu em Santo Antão, Cabo Verde. É licenciado em Belas Artes pela Willem de Kooning Academy, Roterdão e Mestrando em Belas Artes pela Central St. Martins School of Art and Design, Londres. Entre 2002 e 2009 exerceu varias funções em projectos de educação e de arte contemporânea no sector dos museus e galerias publicas em Londres, com especialização progressiva na área de gestão de projectos. Entre 2006 e 2008 foi assistente de curadoria para o New Visions of The Sea, programa internacional de arte contemporânea do National Maritime Museum de Londres. Desde 2009 é director do M_EIA, a primeira instituição de ensino superior dedicada às Artes Visuais e Design em Cabo Verde.







INFLUX CONTEMPORARY ARTRua Fernando Vaz, 20 B1750-108 Lisboa+ 351 91 850 1234
info@influxcontemporary.comwww.influxcontemporary.com

A CAIXA DE PANDORA

A caixa de Pandora:


A caixa abriu …

Caixa de rosmaninho,
As colunas; suspenso jardim,
Dez dedos,
Meu tigre erecto;

O Ganges recebe a lua;

No outro lado da margem,
Um pássaro pesca saudades;

Cheira a fêmea!...

Na caixa a poesia entrou,
A ostra abriu seu brasão,

Pandora abriu seu baú,
Teve um orgasmo de 1000 watts.

Num Convento de freiras,
Alegres cantavam:

Aléluiaaaaaaaaaléluia--- aaaaaaaaaaleluiaaaaaaaaaaa!...



domingo, 16 de janeiro de 2011

O ENCONTRO


Olhando da janela do meu atelier para a baía do Porto Grande banhada por raios de sol, enxergo um barco cruzeiro, atracado no cais. Um bando de turistas, na maioria velhos ingleses, fazem fotos da velha capitania dos portos, outros vão entrando no mercado de peixe. Um homem dos seus sessenta e muitos anos, loiro, alto que nem uma figueira-brava, vê a minha Renault 4, estacionado na porta do meu estúdio, atónito, ele circula o carro várias vezes, e é visível na sua cara, uma certa alegria e surpresa, como se tivesse visto de novo, a sétima maravilha do mundo. Mirando na minha direcção, olha nos meus olhos, pergunta-me se falo inglês, digo-lhe que sim, e, apontando para a máquina, diz-me, que o seu primeiro carro foi uma Renault 4 nos anos sessenta. Digo-lhe que o meu tem 22 anos circulando, que adoro o meu velho carro. Pergunto-lhe de onde ele vem, ele diz-me ser Norueguês, que está no cruzeiro atracado no cais, a caminho de Buenos Aires… Que se sente como um peixe fora de água, no meio dos outros passageiros ingleses de classe média, uns verdadeiros snobes, que tratam mal aos tripulantes filipinos, mão de obra barata que as companhias vão buscar na Ásia…Diz-me que o barco é norueguês, mas que único norueguês da tripulação é o seu comandante… Flagrante imagem triste da globalização capitalista, diz-me o descendente dos vikings… Mudando de conversa, digo-lhe que tenho um irmão na Noruega, que mora em Mandal, no sul do belo país dos fiordes, há mais de 40 anos e… Após alguns segundos em silencio, diz:
Gostaria de beber uma cerveja, meu nome é Harald Myrvang! – Meu nome é Tchalê Figueira - Aqui na esquina, na loja Select, eles tem uma óptima cerveja Checa e, se você não se importa, lhe faço companhia!...
Na loja pedi a bela empregada duas cervejas, Harald perguntou-me algumas coisas sobre a minha pintura, disse-lhe que morei 15 anos em Basileia na Suíça onde trabalhei e estudei, falamos do famoso pintor norueguês Munch que ficou famoso com a obra o Grito, também de um outro menos conhecido de nome, Eikkas. Disse-lhe que gostava da musica de Grig, ficou admirado com os meus conhecimentos sobre cultura Norueguesa, (que não é assim tanto). Na segunda cerveja, Harald abre-se comigo, conta-me um pouco da sua vida: Diz-me que foi sociólogo, que está reformado, que vai até Buenos Aires, logo a Patagónia. Ao falar da Patagónia, menciono-lhe o belo livro de Bruce Chatwin: Viagem a Patagónia, ele desconhece a obra…- Depois da Patagónia irá regressar a Buenos Aires, para começar a viagem que fez Ernesto Che Guevara com o seu amigo numa motocicleta. Tinha visto o filme sobre El Comandante: Diário De Uma Viagem Em Motocicleta, ficou fascinado com a película e, após ter falado com os seus filhos, que tentaram dissuadi-lo da viagem, aqui estava em São Vicente, a caminho da Argentina…
Mostrou vontade de regressar um dia ao nosso arquipélago, dei-lhe o endereço e o número do meu irmão em Mandal para dar-lhe informações sobre Cabo-Verde, ele deu-me o seu endereço na Noruega, tentou pagar as cervejas, não aceitei, dizendo-lhe que ele pagaria quando eu for a Noruega.
Despedimos com um abraço! Ele para o seu cruzeiro, eu para o meu atelier…

Foi um belo encontro, um momento de confraternização entre dois homens que em poucas palavras se sentiram ligados pela forma humana, planetária, de amar este globo azul, nossa casa girando neste espaço infinito… Boa Viagem Haral! E que a tua viagem seja um encontro bonito, como foi o nosso, com homens de boa fé, em outras latitudes deste Mundo.

sábado, 15 de janeiro de 2011

POESIA


Desce com a luz das montanhas, vem escutar comigo, a melodia no bater das asas das mariposas matinais...

A sonoridade do mundo; minha felicidade de seres estrela, na lei fantástica da gravidade…

Equilíbrio que ideio, raiz das tuas meigas palavras, meu meio-dia de claridade única! …

Fonte Radiante, água cristalina, flor de lótus num abraço teu...